O jornal Pioneiro, de Caxias do Sul, em sua edição de 28 de janeiro, publicou a reportagem "Refúgio nostálgico", assinado pela jornalista Vivian Kratz, em que destaca o roteiro turístico que está sendo organizado pela Associação de Turismo da Serra Nordeste (Atuaserra) e um grupo de empreendedores da localidade.
Veja a seguir a reportagem completa:
Refúgio Nostálgico
Graças à visão de herdeiros e empreendedores locais, região do Desvio Blauth, em Farroupilha, recupera o charme dos veraneios das décadas de 1930 a 1950, com iniciativas nas artes plásticas, música e gastronomiaHouve uma época, início do século passado até meados dos anos 1950, em que chegar ao litoral era considerado uma aventura. Para muitas famílias de Porto Alegre e região metropolitana, uma das alternativas para fugir do calor era subir a Serra rumo a hospedagens estrategicamente idealizadas em meio à natureza. É nesse contexto que surgiram os veraneios Hampel e Blauth & Haupt, ambos inspirados nas referências europeias de então: lugares de clima ameno e vegetação abundante eram conhecidos por seus efeitos curadores (confira texto à página 5).
O primeiro, aberto desde 1899 em São Francisco de Paula, permanece em funcionamento até hoje. O segundo, no atual distrito de Desvio Blauth, em Farroupilha, encerrou as atividades na metade dos anos 1950. No entanto, meio século depois, ensaia-se uma retomada da vocação turística da região. Trata-se de um roteiro ainda bastante informal, mas nem por isso menos acolhedor e envolvente. A iniciativa empreendedora dos herdeiros do antigo veraneio está fazendo surgir, desde meados de 2010, uma cena cultural para apreciadores de música, artes plásticas, fotografia, gastronomia e design de móveis com ar vintage. Uma grata surpresa em um trecho de menos de um quilômetro.
A retomada
Pouco restou do antigo veraneio do Desvio Blauth, às margens da VRS-813, estrada que liga Farroupilha a Garibaldi. Os chalés foram desmanchados e vendidos, assim como os demais prédios. A madeira acabou utilizada em outras construções. Pela memória de Dagmar Closs Michel, 70 anos, única neta viva da empreendedora Elsa Haupt, apenas um chalé reformado por um hóspede fiel, o empresário porto-alegrense João Kluwe Jr. (já falecido), segue em pé – é o casarão que ilustra a capa do Almanaque.
Quem conta a história é uma das herdeiras, Patricia Haupt, 43 anos. Bisneta dos idealizadores, Patricia está empenhada em fazer do lugar um novo roteiro cultural junto à natureza. O projeto surgiu quando ela e o marido, o empresário Ricardo Nunes da Silva, 49, buscavam um lugar para o acervo de fotos e documentos da família:
– Resolvemos colocar aqui tudo aquilo que a gente dizia que ia pôr ‘quando um dia abrisse um café’ – lembra Patricia, mostrando fotos antigas.
O local escolhido para o café foi a casa onde funcionou, de 1992 a 2006, a agroindústria dedicada à venda de produtos derivados de leite de cabra, o Paraíso das Cabrinhas, idealizada pelos pais dela, Ricardo e Marta. Com o fim das atividades, o imóvel chegou a ser alugado “por uma moça que vendia congelados”, mas o negócio não durou mais do que três meses. Antes de se transformar no tão sonhado café, a casa abrigou até um prostíbulo.
– O cara alugou dizendo que ia fazer uma lancheria, mas funcionou só uma noite – lembra o marido de Patricia.
– Ele colocou uma lâmpada vermelha aqui na frente, a minha mãe teve que pagar para ele sair, mas acabou tudo numa boa – completa Patricia.
Passado o episódio, em março de 2010 inaugurou-se o Estação Café Blauth, com a proposta de ser um espaço voltado para as artes, além de palco para artistas locais. Shows de jazz, blues, samba e MPB ocupam as noites de sábado, alguns em clima de jam session, com músicos da plateia e amigos integrando-se ao grupos.
– Tem a vista maravilhosa do vale do Blauth e sempre alguém para contar histórias sobre o lugar – diz Marcos Vinicius Biazzus, relações-públicas e integrante da banda de blues Vitrola Jam, que, lógico, costuma apresentar-se por lá.
Ao contrário do veraneio, que atraia visitantes apenas nos meses de janeiro a março, a época quente de movimento no café é o inverno.
– Acho que tem a ver com a proposta de lugar aconchegante, que combina mais com o clima frio, mas também porque nessa época do ano (verão) muitos estão na praia nos fins de semana– cogita Silva, referindo-se à clientela fiel.
Aberto de quinta a domingo, das 15h até o anoitecer, o café tem como carro-chefe os clássicos strudells, doces e salgados, além de bebidas variadas. Depois de uma experiência em 2011, este ano os proprietários pretendem ampliar a oferta de jantares com reserva assinados por chefs de cozinha. Um dos eventos já programados, ainda sem data, é uma feijoada com chorinho. Outra novidade é o aluguel para eventos.
– Recentemente, um grupo apareceu para uma comemoração fechada e ficou tocando noite adentro – conta Patricia.
Da música à fotografia
Além do café, desde o ano passado Patricia dedica-se à criação de um ambiente destinado à fotografia, o Espaço Livre de Fotografia. Aluna do curso na Universidade de Caxias do Sul, ela transformou uma das peças do casarão localizado em frente à igreja do Desvio Blauth em estúdio para experimentações e oficinas. Uma delas, intitulada Olhar do Avesso, inclui vivências com câmera obscura e construção de lunetas artesanais. Outra experiência foi com a técnica de cianotipia, que utiliza a luz do sol para imprimir imagens utilizando-se de uma solução química.
– A ideia é brincar um pouco com isso. Já tive entre os participantes desde crianças até senhoras – conta.
Para esse ano, outros encontros estão sendo programados, o próximo possivelmente no mês de março.
O casarão onde Patricia e Ricardo moram desde 1995 com os filhos Guilherme, 16, e Bernardo, sete, mais cinco cachorros, é a antiga vinícola Beiser, atrativo para os turistas na época do veraneio. O imóvel foi comprado pelo avô dela, Herbert Curt Haupt, em 1957, e era usado como cabanha de gado normando até ficar abandonado por vários anos.
– Isso aqui era um lixo, ninguém queria. Estamos há quase 20 anos nesse trabalho de restaurar e arrumar para deixar do jeito que está agora – relata a herdeira.
Para os outros pavilhões distribuídos no terreno, a empreendedora já tem planos. Fará uma reforma para oferecê-los como sede para eventos.
– Tem gente que ficou louca com o espaço para fazer uma festa, formatura ou casamento. Num primeiro momento será meio rústico, não dá para fazer um mega investimento. Mas preciso ocupar para poder manter essa estrutura em pé – explica, referindo-se às construções históricas.
Caminhando pela alameda de plátanos ao lado do casarão, Patricia conta que aquela era, antigamente, a entrada principal da vinícola, pois ligava à estação Desvio Blauth, por onde passa o traçado férreo. A ideia é que o deslocamento dos visitantes seja a pé, utilizando esse caminho:
– Pedimos para a prefeitura fazer uma limpeza nesses trilhos, para que se consiga caminhar com mais segurança. A ideia é fazer uma trilha para que os turistas que vêm a Bento Gonçalves conhecer as vinícolas também passem por aqui.
Roteiro revitalizado
Conforme a diretora executiva da Associação de Turismo da Serra Nordeste (Atuaserra), Beatriz Paulus, o roteiro denominado Núcleo de Turismo Cultural Desvio Blauth começou a ser formatado no ano passado, com a ideia de aproveitar o potencial histórico do lugar. Ela conta que a associação tem trabalhado junto aos empreendedores e à prefeitura de Farroupilha para construir uma área de contemplação.
– O Desvio Blauth é um centro energético maravilhoso, algo que o turista de hoje gosta, esse lado mais místico, com vivências, significado, interiorização – explica Beatriz, animada com as chances de continuidade do projeto.
Conforme Beatriz, o roteiro Todos os Caminhos levam ao Salto Ventoso funcionou no Desvio Blauth de 1999 a 2006, mas teve fim com o encerramento das atividades da agroindústria dos pais de Patricia, onde era feito o agendamento dos passeios.
Arte e natureza
Próximo ao café está também o atelier da artista plástica Marinês Busetti. O assoalho de madeira e o ar bucólico dos arredores do chalé remetem imediatamente ao passado do lugar. O casarão de 1953 foi construído onde ficava o refeitório do antigo veraneio, inclusive com a madeira de umas primeiras casas erguidas (e demolidas) na localidade.
É nas paredes dos diversos cômodos que Marinês exibe suas obras, pontuadas por figuras geométricas e efeitos de ilusão de ótica. Foram várias fases até a artista chegar à xilogravura, técnica milenar que tem como base de criação uma matriz em madeira.
A oportunidade de abrir o atelier no Blauth surgiu a partir da amizade com Patricia. O desejo de um lugar maior, onde pudesse guardar as matrizes da xilogravura e usufruir de luz natural, também pesou – exatamente o que o casarão azul e branco proporcionou. No Chalé da Xilo, Marinês recebe grupos de cidades vizinhas e de Porto Alegre para oficinas.
A empresária Rosilene Rosanelli, que frequenta tanto o café como as aulas, foi atraída pela beleza do trajeto.
– O Blauth é um lugar diferente. Atrai pessoas que gostam de arte, boa música. Essa afinidade é que torna o ambiente tão agradável – comenta, referindo-se a momentos como o encontro do violonista Luiz Ortiz, marido de Marinês, com a artista plástica Viviane Pasqual em duos de flauta e violão, bastante frequentes tanto no palco do café quanto no jardim do casarão.
Viviane, aliás, é responsável por marcar o território do Blauth com suas tradicionais placas de beira de estrada. Na última semana, desenvolveu um totem formado por várias carrancas junto a um dos postes de luz da estrada, defronte ao Espaço Livre de Fotografia. A artista, que participa do movimento cultural local desde o início, tem trabalhos decorando o café e já realizou intervenções semelhantes em estradas na Praia da Ferrugem (SC), em São Jorge da Mulada e na praia de São José do Norte, além de algumas cidades da Bolívia.
Essa integração vai ao encontro do que Marinês divulga no chalé:
– Tive o prazer de receber alunas do Atelier Livre de Porto Alegre. Colocamos a mesa lá fora e desenvolvemos atividades de monotipia. Consegui uma pessoa para nos fazer o almoço e passamos o dia em meio à natureza.
Nos meses de janeiro e fevereiro ocorre a oficina de férias de xilogravura, em que os interessados podem optar por horários às quintas, nos turnos da manhã, tarde ou noite, ou aos sábados, após o meio-dia. A artista explica que são necessários no mínimo dois encontros para sair com o trabalho completo.
– Quem quiser vir e ficar o dia todo é só trazer a marmita, pois infelizmente ainda não temos uma estrutura completa – explica.
No atelier também é possível adquirir gravuras e trabalhos em arte aplicada, como almofadas, jogo americano e porta-copos. E para o mês de março já está formatado um projeto em parceria com a Secretaria de Educação de Farroupilha para receber estudantes.
– São oficinas integrando a arte com disciplinas como Matemática, pelas formas geométricas que estão presentes no meu trabalho, e fazendo um link com a história – detalha.
O projeto será desenvolvido em parceria com as oficinas de fotografia de Patricia Haupt e estará à disposição de prefeituras de outras cidades da região.
Design com ar antigo
Para completar o roteiro artístico-cultural, o Desvio Blauth em breve abrigará o espaço de duas designers que tem chamado a atenção com peças criativas e de ar retrô. Com parceria iniciada há um ano, Aline Venzon e Aline Bittencourt Canziani irão exibir no chalé amarelo, próximo ao casarão de Patricia, algumas das criações que já são vendidas com sucesso no Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba.
A Color Bazaar surgiu quando a dupla decidiu resgatar as mesas de bolacha Cracker e de bolacha Maria (foto acima) que Aline Canziani havia feito alguns anos antes. Posteriormente, Aline Venzon entrou com o desenvolvimento dos pés metálicos de linhas retas. A junção conferiu ao móvel um ar vintage e, ao mesmo tempo, divertido.
– Todo mundo que viveu nos anos 1980 tem essas referências – enfatiza Aline Venzon, sócia da empresa Metallyne, onde as peças são produzidas.
Após o sucesso de vendas das mesas, agora as duas lançam a segunda coleção de móveis e utilidades domésticas. E a ideia do espaço no Blauth?
– Hoje centralizamos tudo na Metallyne, mas aproveitamos a intenção de ter um espaço de criação para nos juntarmos a esse projeto de turismo cultural que está surgindo – conta Aline Venzon.
O objetivo é que o espaço funcione como um show room, aberto quando ocorrerem oficinas nos ambientes de Marinês e Patricia ou mediante agendamento.
– Acredito que para março esteja tudo pronto. Já usamos o lugar para trocar ideias e fazer reuniões. O importante é aproveitar o período de alta do turismo, que costuma ser no inverno – explica Aline Venzon.
Futuras pousadas
Com o surgimento de toda essa cena cultural, começa a aumentar a procura por meios de hospedagem no Blauth. A torcida é para que proprietários de terrenos e prédios não ocupados, alguns até se deteriorando, invistam em pousadas.
Paulo Mützenberg, proprietário do Pague, Pesque e Lazer próximo ao Café, onde fica a represa usada para os banhos e passeios de barco dos frequentadores do antigo veraneio, planeja erguer algumas cabanas. O empresário, porém, pretende colocar o projeto em prática apenas no ano que vem, depois de construir a casa do filho.
– Há vários anos tem gente pedindo. Agora no verão recebo em média 100 pessoas por dia. Tem quem fique acampado por causa da beleza do lugar – conclui.
Vivian Kratz






















