A meta do Ministério do Turismo é que o setor fique perto de dobrar de tamanho até o final da década e chegue a ser responsável por 6% do Produto Interno Bruto (PIB) do País. Mas esse objetivo terá de superar os gargalos de infraestrutura apontados por empresários como um empecilho para o crescimento desse ramo de atividade. O ministro do Turismo, Gastão Vieira, diz que os entraves de infraestrutura apareceram com o crescimento substancial do mercado consumidor brasileiro dos últimos anos e que a pasta tem investido. “Todas as obras voltadas para o turismo que estão em curso entrarão em operação até 2013”, afirmou.
“Temos problemas de custo de construção e legislação ambiental, mas creio que com a entrada de investidores estrangeiros e as linhas de crédito oferecidas pelos nossos agentes financeiros, o Brasil vai conseguir elevar a sua competitividade”, afirma Vieira, que assumiu o cargo em setembro. Ele conta ainda que o ministério vai reduzir impostos de cadeias importantes ligadas ao turismo. Serão beneficiados hotéis, produtos têxteis e colchões. As desonerações, informa Vieira, estão em estudo. “Vamos pegar essa onda de medidas para estímulo ao consumo”, diz.
O ministério abriu uma linha de crédito - o Bndes Procopa Turismo - destinada a ampliação, construção e reforma da rede hoteleira no valor total de R$ 2,3 bilhões e aumentou as ações promocionais do País no exterior. A pasta cita que o Brasil investiu US$ 72 milhões em promoção internacional em 2010 (último dado disponibilizado pela Organização Mundial do Comércio) e ficou entre os dez maiores realizadores de eventos do mundo, conforme a Associação Internacional de Congressos e Convenções (Icca, na sigla em inglês).
A atividade turística representa, conforme o ministério, 3,6% do PIB e gera em torno de R$ 132 bilhões em renda. O objetivo do governo é ampliar essa participação para 6% do PIB até 2021. Para o ano que vem, a previsão de Vieira é de números parecidos ao projetado para 2011, mesmo com uma crise internacional em curso. Este ano o Brasil deve terminar com cerca de 8,9 milhões de desembarques internacionais e 77 milhões de desembarques domésticos.
Para a Copa do Mundo em 2014, a expectativa é de que o País receba 600 mil turistas estrangeiros que devem deixar por aqui R$ 4 bilhões em gastos e 3 milhões de brasileiros em circulação, que devem movimentar R$ 5,5 bilhões. O evento deve criar 700 mil empregos - 332 mil permanentes e 381 mil temporários. O que preocupa é a estrutura necessária para receber toda essa gente. “Não tenho dúvida de que chegaremos na Copa do Mundo com esses problemas resolvidos”, tranquiliza Vieira.
Viajantes domésticos ajudam a alavancar bom momento do País
O turismo interno no País cresceu 16% entre 2007 e 2010, passando de 43 milhões de pessoas para 50 milhões. Boa parte disso é de viajantes domésticos que já correspondem por 85% do turismo brasileiro. Os dados são do Ministério do Turismo e empolgam o setor. O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis, Enrico Fermi Torquato, informa que, além dos turistas domésticos, o setor irá investir na América do Sul. As principais apostas serão no Chile, por sua boa posição econômica, e na Argentina, que tem se reestruturado financeiramente. Além disso, o Peru e a Colômbia também têm apresentado forte crescimento econômico, com bons mercados a serem explorados pelo turismo brasileiro.
“O grande problema nosso é que estamos distantes da Comunidade Europeia e dos Estados Unidos. Há ainda a questão burocrática do visto. Os americanos têm facilidade para visitar o Caribe e acabam indo para lá”, alega. “Já na Europa, o turismo de fronteira é muito forte”, explica Torquato. Apesar disso, ele acredita que, quando a crise econômica mundial der uma trégua, os turistas europeus voltarão ao País.
Segundo Torquato, a falta de leitos, um dos gargalos costumeiros do setor, deixou de ser problema. De acordo com ele, o País tem leitos suficientes para atender à demanda, inclusive na época da Copa do Mundo. “Com relação à infraestrutura física, nós estamos preparados. Temos um bom número de leitos e a tendência é crescer. Nós tínhamos dois gargalos que eram o Rio de Janeiro e Recife, mas isso já foi resolvido com um pacote de incentivos. Estão sendo construídos 36 hotéis no Rio e 10 mil apartamentos em Recife.”
Na visão de Torquato, no entanto, persistem outros problemas como a mobilidade urbana e o transporte aeroportuário que ainda deixam a desejar e precisam ser reestruturados. Ele ainda cita o câmbio, como real forte que prejudica a balança comercial do turismo, propiciando a saída dos brasileiros das classes A e B, que ainda consideram mais vantajoso viajar para fora do País. “Temos competição forte nas classes B e A. Esse é um consumidor que viajou muito internamente e agora, com a inversão da moeda, ele está viajando para fora.”
Nova classe média estimula operadoras e agências de viagens
O ano de 2011 deve terminar com final feliz para a indústria brasileira do turismo, com perspectiva de alta de cerca de 20% no faturamento das agências e operadoras de viagens. O segmento recebeu um impulso com o surgimento de novos consumidores que chegaram à classe média nos últimos anos e colocaram o turismo no seu orçamento familiar. Pacotes e produtos especiais foram montados para atender essa nova demanda, que cada vez mais vai exigir do governo e da iniciativa privada a construção de uma infraestrutura suficiente para acolher essa expansão.
É na classe média que está a justificativa da Associação Brasileira das Operadoras de Turismo (Braztoa) para o crescimento de 20% previsto para este ano. O alto nível de emprego no País significa para o turismo, além de renda disponível, que mais trabalhadores possuem o benefício das férias regulamentadas. E nada combina mais com férias do que viagens. “A classe C está se inserindo no turismo tanto doméstico quanto internacional”, afirma o presidente da entidade, Marco Ferraz. “O turismo está se tornando necessidade na cesta de consumo das famílias”, completa.
Em 2010, as associadas da Braztoa transportaram 4,7 milhões de passageiros, com faturamento de R$ 7,5 bilhões. A expectativa é de que 2011 feche com 5,5 milhões de turistas e retorno de R$ 9 bilhões. Para 2012, a crise econômica internacional deve provocar algum transtorno, mesmo assim, o crescimento deve ficar acima dos 10%, um avanço, segundo Ferraz, “protegido” pela classe média brasileira. A urgência, afirma o presidente da Braztoa, é por investimentos em infraestrutura, como construção de aeroportos, reforma de estradas e ampliação da rede hoteleira.
O presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav), Antonio Azevedo, conta que para atingir a classe média, as empresas oferecem produtos mais em conta e com prazos mais extensos. E para isso necessitam de crédito. “A classe média compra com base no valor que vai comprometer a sua renda mensal. Dividido em dez vezes, um pacote de R$ 1.000 fica diluído no orçamento familiar”, exemplifica. “Medidas do governo para expansão do crédito são fundamentais”.
O ponto negativo do setor em 2011, na opinião do presidente da Abav, ficou no campo político. Azevedo reclama da gestão de Pedro Novais (PMDB-MA), que começou o governo Dilma Rousseff como ministro do Turismo. Ele diz que o peemedebista não conhecia o setor quando assumiu o cargo em janeiro. “A indústria do turismo não depende só do ministério, mas se não existem medidas governamentais para desenvolver a infraestrutura turística, o setor inteiro fica prejudicado”, afirma. Novais deixou o comando da Pasta em 14 de setembro, após denúncias de uso irregular de recurso público.






















